Sentir.mentes

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector

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Não, não quero sonhar isso, não quero sequer um lampejo disto. Não pode ser assim, não pode!
Acordo, vejo que suei horrores, estou tremendo tanto que até a minha cama balança junto com o ritmo do meu corpo. Estou confusa, onde está você?
Pouco a pouco o sonho vai se formando em minha mente, e como numa explosão, tudo aquilo de que eu mais temia estava ali, me invadindo, me queimando me deixando sem ar e sem coração.
Eu te vi, te vi mais lindo do que nunca, mais feliz, como nunca esteve comigo, com um sorriso de dar inveja a qualquer um e com um brilho no olhar que o sol teria vergonha de expor seus raios.
Acompanho esse momento e percebo que a sua beleza não é pra mim, que o motivo dessa sua felicidade não sou mais eu, que esse sorriso não é direcionado pra mim e que esse brilho nesses olhos que eu tanto amo não me ilumina. Quem, quem é essa pessoa que merece tudo isso? Nenhuma mulher, além de mim, é digna de você.
Com uma dor que me estrangula, que me asfixia, que me mata, resolvo olhar pra a pessoa que você entrega todo esse amor, toda essa luz que eu seguia como um guia. Que estranho, será que eu bebi? Será que finalmente fiquei louca?
Eu estava preparada pra tudo menos aquilo, eu agüentaria uma mulher linda, com todas as qualidades que não tenho, mas não agüentaria aquela mulher, uma que eu conhecia mais do que bem. A mulher em questão era eu, eu, eu e eu.
Focalizei naquela estranha e ao mesmo tempo uma conhecida de velhos tempos, enquanto ele a abraçava, a admirava, a beijava, a amava. Percebi então, que realmente era eu, mas aquela dos velhos tempos, aquela em que sabia sorrir, aquela que ainda tinha brilhos nos olhos, aquela segura, aquela que amava.
Com horror, saí correndo da minha cama que agora estava fria, parecia com o meu coração naquele momento, me olhei no espelho, e mais uma vez foi com horror que não me reconheci, que diante de mim estava uma estranha.
Esse pesadelo foi um reflexo da insana realidade, um lampejo de um futuro que se eu não me encontrar, não me redescobrir, pode estar muito mais próximo. Como pode ser isso? Perder um grande amor pra você mesma? É sem dúvida cruel e esquisito.
Lavo meu rosto com a esperança da sujeira que se infiltrou nele sair com a água e o sabão. Depois de muito esfregar, vi que não era meu rosto que precisava ser limpo e sim o meu coração, a minha alma, o meu ser. Não é tarde de mais, nunca é tarde de mais, sempre há esperança, pelo menos é o que eu digo a mim na esperança de acreditar.
Não tenho mais vontade de dormir, estou com medo de me ver de novo e chorar por aquilo que perdi, mas que estou disposta a recuperar.

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